Tá tudo bem.

Eu desejo que você nunca insista no impossível assim como você me desejou que não deixasse a felicidade ir embora. Mas a verdade é que você nunca foi a minha felicidade. Nem eu a sua. Que você não insista no impossível, porque desde o começo a gente sabia que a chance de não dar certo era grande. Você nunca vai saber o que é imaginar ninar uma criança cantarolando uma daquelas baladas de amor bem tristes. E eu, sejamos sinceros, nunca saberei o que é uma cavalgada de cinco dias no Quirguistão. Veja bem, não sei se quero. E também não sei se você o quer. É uma noite de sexta-feira e não me deveriam deixar respirar de tão pouco dinheiro que eu tenho. Tem um show de uma daquelas bandas que eu lhe mostrei e você nunca se interessou tocando nos meus fones. “I want to see the light of love, I’m looking for meaning in my life”. Eu tô feliz. Tá tudo bem. 

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Ele falou que eu tinha voltado mais bonita. E eu podia ter ignorado, como se ignora todas as mentiras que as pessoas nos contam por força do hábito, parte para agradar e parte por não ter mais nada o que dizer. Mas o problema é que eu nasci com o raro dom de saber quando ele, e só ele em específico, diz a verdade. E daí eu acreditei.

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Tem domingos em que o melhor a fazer é chorar sentada no chão da cozinha com um cão e dois gatos. Só pra não chorar sozinha. Tem domingos em que a gente tem que abraçar mãe, irmão, melhor amigo e agradecer em prece baixinha só por conseguir ver mais um pôr do sol. Tem domingos em que a gente tem que achar uma força sobrenatural pra continuar existindo. Tem domingos em que, felizmente, amanhã é segunda-feira. E muito obrigada.

http://www.youtube.com/watch?v=G6QjLjBZcqs

 

2012, lixeiras-cavalo, “O Passado” e foco

Cuidado.

Eu perdi meu pai em 2012. Mas foi a única baixa desse ano. Em 2012, eu conquistei tantos amigos a ponto de formar uma família (bem grande, daquelas de encher a casa de praia nas férias) fora da família. Amigos que tornaram o meu ano mais fácil, amigos que eu nem imaginava ter, mas que me ajudaram a encontrar meu lugar no mundo – inclusive com viagens até o fim do mesmo, onde o céu é tão mais bonito e dá pra confundir uma lixeira com um cavalo no meio da noite.

Em 2012 eu ganhei um estádio inteiro. O estádio mais bonito que eu podia imaginar. O estádio que me fez chorar logo em nosso primeiro encontro, e onde me vejo chorando com a mesma alegria infantil por muitos anos daqui pra frente. O estádio onde eu abracei meu melhor amigo gremista não praticante e disse: “cara, isso daqui a gente vai poder contar pros nossos filhos – e pros netos”.

E, nesse mesmo dia, descobri que talvez pudesse ter encontrado o amor da minha vida. Alguém que não entendeu muito bem porque não foi ele minha companhia para a data, mesmo se afirmando colorado, e que disse que o importante era compartilhar momentos de felicidade como esse comigo. 2012 foi sábio em me ensinar um pouco mais sobre ter calma e amor no coração.

Reencontrei a proximidade tanto com a minha mãe quanto com a mãe dela. Achei a paz em ter a minha abuela sentada conosco à mesa do almoço de final de semana, em ter a minha mãe experimentando de novo as agruras e as alegrias de ser uma moça solteira (moça sim, e sem culpa – afinal, só mesmo se estando sem culpa para ostentar um rosto sem rugas daqueles) depois da catástrofe que foi nosso início de ano.

Em 2012, Deus levou pro céu as minhas duas gatinhas. A Belinha, que morreu cochilando no sofá em cima da manta preferida dela (minha manta preta de lã que eu roubei do armário da agência), e a Carlota, que gostava de voar. E Deus me deu duas gatinhas vira-latas lindas, a Cléo e a Monalisa, que também me consolam quando eu estou me sentindo chateada e que também gostam de dividir a cama comigo quando esfria. Além disso, Deus me deu um cãozinho com os olhos mais doces que eu já vi no mundo, que eu ajudei a batizar com um dos nomes mais sinceros da literatura: Holden Caulfield.

Em 2012, eu terminei de ler “O Passado”. E eu preciso dizer que doeu. E preciso dizer que escreveria uma cartinha a Alan Pauls avisando que entendi o recado e que agradeço os ensinamentos. Porque amar dói, amar não é necessariamente bonito, amar é às vezes perder-se como Rímini e às vezes ser perseverante ao ponto da obsessão como Sofía.

Em 2012, eu conquistei uma profissão, apesar de ter todas as dúvidas do mundo sobre meu talento em exercê-la. Em 2012 eu ganhei um diploma que afirma que sou capaz de ser honesta, não importa quais sejam as circunstâncias. E pretendo levar essa honestidade, que muita gente esquece tanto ao decorrer da vida quanto ao transcorrer dos anos de carreira, até o fim.

Porque tem gente que gosta de dizer que eu não tenho foco. E eu não devo ter mesmo, se foco é o que vocês chamam de encarar o próprio umbigo 24 horas por dia. Em 2013 eu não vou fingir saber de nada que eu já não saiba – porque eu cresci o suficiente para confiar em mim como alguém que aprende. E a lista de resoluções fica para outro dia. Feliz 2013.

É bom sentir saudades de você no almoço de domingo

Duas coisas que me fazem querer muito chegar à idade da minha abu com a mesma saúde que ela é a calma e a simplicidade que ela mostra pra encarar qualquer problema. Mesmo o ajuste de vestido mais impossível ela resolve com duas pences e te diz com um sorriso que ali “não tem nenhuma ciência”. Abu dá voltinhas com sua cã todos os dias e, quando sente que precisa de umas férias, vai a Salvador dar uma arejada e volta pra casa com cocadinhas para todos os netos – e um DVD pra mostrar o que viu na Bahia, porque os quase 84 anos não a excluem da condição de pessoa moderna. E, nos meus 21 curtos anos de existência, eu entendi que abu fez tudo o que pôde pela família que ela criou e agora aproveita a melhor das velhices – e que é bom se sentir feliz pelos outros que nem eu me sinto por ela e como eu tenho certeza de que ela se sente por mim quando me diz que eu “nasci bonita” e assim continuo (por dentro e por fora, eu espero, vózinha).

Alguém que te destrua a vida

Há pelo menos dois edifícios Santa Cruz em Porto Alegre. Um deles, naquela rua em que você me levou pela mão até que a gente se cansasse de andar. O outro é, ou costumava ser, a construção mais alta da cidade. São seus parentes com conexões, você me diz. E há muito tempo, desde que você foi embora, a verdade é que eu sorrio para esses edifícios como eu sorriria para você. E eu não me importo, mesmo com você aí, em todos os lugares, e eu aqui, com a ilusão de estar reconstruindo uma vida, de dizer que largaria tudo o que há aqui para correr  mundo – eu, você e aquele desenho da guerreira que me persegue pela cidade em vidros de caminhão (que eu tranquei dentro de “O Passado” do Alan Pauls, embora eu mesma saiba que isso é uma injustiça. Você não merece outro lugar que não o meu presente.).

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