tenho que lhe dizer que a chuva lava, Camilo. Um banho de chuva bem tomado, naquele humor desolado e perdido no mundo que só ter tempo de tomar chuva proporciona, desencrusta você de mim aos pouquinhos. Da primeira vez, parei de chorar por conta da fivela do meu sapato cinza (ainda o vejo no guarda-roupas, com a pontinha de esparadrapo que usei para fazer o remendo). Numa outra vez achei que algo de grande estava prestes a acontecer enquanto eu e um outro de você andávamos embaixo de um guarda-chuva pela cidade baixa à procura de uma garrafa de Brahma. Sempre uma leveza no humor, sempre um pequeno ensinamento da chuva, Camilo.
Mas a última intervenção da chuva foi no sábado de manhã. Saí de casa com calor e o céu semi-cinza, e o tempo com brisa, nada disso acusava a chuva que eu pegaria na saída da aula de francês. Naquele dia aprendemos o imperativo. Até que, mais ou menos pelas 10:45, a chuva começou. Não sem um “AAAAAH” vindo da parte da classe de francês que acordou muito mais cedo do que se deve acordar em um sábado para tomar chuva na saída. Obviamente eu não tinha um guarda-chuva, o que eu roubei na Rádio Gaúcha é grande demais para levar quando não se tem certeza de que vai chover.
Eu não estava no humor para a chuva. Era um tanto a mais de tristezas e não-conquistas do que eu poderia suportar e eu não precisava de lembretes chuvosos para me sentir sozinha. Mas foi até eu sair do primeiro ônibus e atravessar a faixa de segurança em direção à segunda parada. Eu perdi meu sapato, Camilo. Eu perdi meu patético sapato de plástico, meia numeração grande demais para meu pé, no meio da faixa de segurança. E, longe de me irritar, eu ri. Eu ri porque é tudo muito patético. Todos os nossos bateres de cabeça e a minha ridícula busca por alguém que se compare a ti, toda a minha pretensão de grandes amores selvagens. Eu ri. Foi como se a chuva dissesse “Souriez!”, no imperativo recém-aprendido da língua francesa. Atravessei a faixa de segurança com um sapato no pé e outro na mão, pisando nas poças d’água e pequenos córregos que se formaram na avenida que me conduz para casa. E rindo de forma febril, doentia, enlouquecida.
És um pateta, Camilo. Tu e todas as tuas manifestações humanas. E a última das lições que me tem ensinado a chuva foi justamente esta: ria. Isso tudo é ridículo demais para perder um segundo problematizando. E tão inevitável quanto um banho de chuva.
Isto foi minha Postagem Temática sobre chuva. Para mais informações, favor clicar à sua esquerda.
Minha sugestão para o próximo tema – fidelidade

3 Comentários
9 09UTC Novembro 09UTC 2009 às 4:07 pm
Adoro teus textos, sempre tão verdadeiros, tão fê!
10 10UTC Novembro 10UTC 2009 às 8:12 pm
“Tão inevitável quanto um banho de chuva”. Que metáfora bonita!
Muito bom, o texto.
17 17UTC Novembro 17UTC 2009 às 8:37 pm
MUITO BOM esse texto.