Amigo, tudo isso lhe poderia ser dito em uma mesa de bar. Mas acontece que eu tenho poucas ideias adamantes sobre o protocolo romântico, e esta, em especial, merecia ser eternizada em um manifesto.
Minha influência é claramente uruguaia para o cinéfilo mais aplicado. O segurança Jara em “Gigante” teve a ideia antes, muito antes de mim. Mas reafirmo, e o espírito do gigante apaixonado brada silencioso junto ao meu: dê cactos. Não flores. Pois apenas um cacto dá a real dimensão do coração que você oferta junto com o inusitado espécime botânico. O cacto é a metáfora mais simples do amor. À parte o evidente dos espinhos (quem não sabe que amar machuca?), o importante é o cuidado no seu cultivo.
Flores são lindas, mas morrem. E com cuidados diários, um cacto leva uma vida longeva. Não se pode regá-lo demais, no entanto, senão ele apodrece. Um pouco de água, um pouco de luz: o necessário faz maravilhas. E não é justamente o necessário que falhamos em fornecer àqueles que dizemos amar? A gente quer tanto impressionar pela inteligência e pelas idiossincrasias, tem essa necessidade boba de se convencer do nosso valor por meio dos outros – e esquecemos daquilo que é realmente essencial. O carinho diário, o chá de hortelã que não cura a gripe (mas ajuda, só pela intenção), o CD gravado numa onda de empolgação, o respeito inabalável… o necessário.
Porque o amor, se recíproco, já pressupõe que para alguém você é o mais inteligente, o mais interessante, e, bem, o mais importante. Não adianta mover o mundo para se mostrar merecedor do amor de alguém quando se falha em regar na medida certa aquele cacto. Nem tão pouco que seque e suma, mas não demais que acabe por lhe apodrecer. Sincero e constante. Então assuma seus espinhos, se comprometa com o exercício de cultivar o necessário e de mostrar o seu coração sem esconder a falibilidade: não dê flores, dê cactos.

